Loja Universitária Dos Livres Pensadores nº34

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Breve História do Rito Moderno


Por: Alexandre Magno Camargo
ARLS Philantropia e Liberdade nº 3557 – GOB/GOESC

Em 3 de abril de 1732, foi criada a primeira Loja Maçônica francesa; existindo registros de Lojas estrangeiras estabelecidas em anos anteriores, principalmente entre os exilados ingleses acolhidos em solo francês após a revolta de 1649. A nova Maçonaria, criada em 1717, foi, entretanto, para a França, em 1726.

Em 1737, já eram cinco as Lojas francesas situadas em Paris, e vinte e duas em 1741. Nesse meio tempo a Maçonaria atingiu o interior da França e, em 1740, fundou-se a Loja de Lions, seguida de outras em Rouen, Caen, Nantes, Boudeaux, Montpellier e Avignon.

A partir de 1735, teve inicio o processo evolutivo de criação de uma potência maçônica em território francês, motivado pelo elevado número de Lojas existentes na França, assim como pela crescente vontade de nomeação de um Grão-Mestre francês. De outro lado, as Lojas “inglesas” decidiram, em 1736, criar a Grande Loja Provincial Inglesa da França. Tais Lojas eram vinculadas à Grande Loja de Londres que, de início, mostrou oposição à criação da referida Grande Loja Provincial.

Em decorrência de uma assembléia geral de maçons realizada em 24 de junho de 1738, o duque D’Antin foi nomeado “Grão Mestre Geral e Perpétuo dos Maçons do Reino da França”. Tal evento é apontado como a data oficial da criação da Grande Loja da França, embora o nome só viesse a aparecer em 1765, sendo a primeira Potência legitimamente francesa.

Como era de se esperar, a Grande Loja de Londres mostrou forte resistência quanto à criação da Grande Loja da França, pois tinha interesse em manter sob seu jugo e hierarquia direta as Lojas constituídas fora da Inglaterra.

Mas a resistência inglesa não surtiu efeito.

O processo de consolidação da Grande Loja da França sofreu forte abalo com a morte do Grão-Mestre, o duque D’Antin, em 1743.

O cargo foi então assumido pelo Conde de Clermont, que de fato não tinha maiores interesses pelas atividades maçônicas. Assim, o comando efetivo passou a ser exercido por prepostos, de tal sorte que, com a falta de um líder carismático e presente, o qual pudesse administrar os interesses e necessidades daquela Potência, aglutinando e conduzindo seus membros, deu ensejo a toda sorte de problemas e cisões internas, originando dissidências que conviveram em constante tensão.

Em 27 de dezembro de 1766, em razão de tumultuo ocorrido entre Maçons ativos e excluídos, sobreveio proibição por tempo indeterminado das reuniões de Maçons, o que se estendeu até 1771, ano da morte do Conde de Clermont, oportunidade em que o duque de Chartres, primo do duque de Luxemburgo, aceitou o cargo de Grão-Mestre, exercendo fundamental papel para a reestruturação da Maçonaria Francesa, não apenas devido sua liderança natural, mas, também, em vista de seus parentescos e de seu prestígio social, possuindo suficiente prestígio para permitir sem maiores traumas a reintegração dos excluídos, fortalecendo com isso a Ordem.

Ainda em agosto de 1771, os maçons reintegrados formaram, juntamente com o Conselho dos Imperadores do Oriente e do Ocidente, uma comissão para elaborar uma reforma administrativa da Ordem, com vistas à organização dos graus e a elaboração de novos estatutos.

Em 24 de dezembro, declara-se, em assembléia, a extinção da Grande Loja da França para a criação, em 9 de março de 1772, da Grande Loja Nacional da França que, em 22 de outubro de 1772, passou a ser denominada Grande Oriente de França – G∴ O∴ F∴, tendo sido empossado o duque de Chartres como Sereníssimo Grão-Mestre da Ordem na França.

Tal alteração não foi apenas uma formalidade, mas resultou na implantação da democracia maçônica, que se caracteriza pela existência de um Poder Executivo assessorado por um Corpo de Deputados escolhidos pelas Lojas que compõem o Grande Oriente, nomenclatura que acabou adotada em muitos países, inclusive o Brasil.

Naturalmente, em 17 de junho de 1773, a Grande Loja inglesa protestou, declarando ser o Grande Oriente mera cisão interna, degradando o título de maçom de todos os seus integrantes. Tal intransigência, no entanto, não evitou a instalação do G∴ O∴ F∴.

Em 1774, o Grande Oriente procurava uma maneira de harmonizar as diversas doutrinas ou ritos, que agrupavam um complexo conjunto de graus, praticados sem norma definida, originando aberrações e a exploração das vaidades, pois diante dos títulos e jóias ricamente elaboradas, muitos plebeus viam nisso uma forma de se aproximar dos títulos da nobreza, satisfazendo seu ego.

O Rito Moderno foi criado em 1761 e, diante da anarquia estabelecida com o surgimento de diversos ritos e graus avulsos, acabou adotado pelo Grande Oriente que o denominou, originariamente, de Rito Francês, ou seja, o rito praticado na França, pois a intenção era a supressão dos demais na tentativa de estabelecer uma ordem em meio ao caos reinante. Assim, mediante o exame e indicação de uma Comissão especialmente indicada, que na verdade desistiu do projeto recomendando apenas os três graus simbólicos, foi instituído o Rito Francês, em dezembro de 1772 e oficialmente instalado em 9 de março de 1773, com apenas os três Graus de Aprendiz, Companheiro e Mestre, fazendo circular em 3 de agosto de 1777, para todas as Lojas, que, doravante, só seriam reconhecidos os três primeiros graus simbólicos.

A abolição dos graus filosóficos causou enorme constrangimento no âmbito do Grande Oriente, pois outros ritos praticavam um número maior de graus - motivo pelo qual, em 1782, o G∴O∴F∴ nomeou nova Comissão, agora denominada Câmara de Ritos, para formar um novo rito com a essência dos Altos Graus. A despeito da controvérsia, em 1778, o G∴O∴F∴ guardava sob sua jurisdição 300 das 547 Lojas à época existentes, mantendo ainda correspondência direta com outras 1.200 Lojas estrangeiras.

Em 1786, após uma série de acalorados debates entre duas correntes que se formaram – uma que defendia a estrutura primitiva (com três graus) e, outra, favorável à adoção de Altos Graus – finalmente, foi aprovado um rito então denominado Rito Moderno ou Francês, com sete graus: 1º Grau Aprendiz, 2º Grau Companheiro, 3º Grau Mestre Maçom, 4º Grau ou 1ª Ordem Eleito, 5º Grau ou 2ª Ordem Eleito Escocês, 6º Grau ou 3ª Ordem Cavaleiro do Oriente ou da Espada, 7º Grau ou 4ª Ordem Cavaleiro Rosa Cruz, sendo os três primeiros Simbólicos e os demais Filosóficos.

Com o “Regulateur” de 1801, todos os graus do Rito Moderno passaram a ter o seu ritual.

Houve um período, em Portugal, no qual o Rito Moderno chegou a funcionar com um grau 8 (Kadosh Perfeito Iniciado) e até um grau 9 (Grande Inspetor).

O Rito Moderno conforme praticado na França permaneceu sem alterações até o ano de 1877, quando ocorreu a grande reforma do Rito, considerado como “o mais importante acontecimento de que se tem notícia na história da Maçonaria Universal após a fundação de 1717”.

Preservando sua estrutura e sua identidade, o G∴O∴F∴ promoveu uma verdadeira revolução ao abolir os dogmas da crença em Deus e imortalidade da alma, provocando violenta reação por parte da Grande Loja da Inglaterra, que assumiu uma posição de franca hostilidade, acusando o G∴O∴F∴ de ter rompido a universalidade maçônica em virtude de ter assumido uma posição de ateísmo, contrária aos postulados da Maçonaria universal, o que não retrata a realidade! O clima assumiu tais proporções, que os Maçons franceses foram proibidos de freqüentar os Templos da Grande Loja da Inglaterra.

Hoje já se sabe que a aposição adotada pela Grande Loja da Inglaterra se deveu mais a motivos políticos e econômicos do que, propriamente, maçônicos. O que é de se lamentar. Mesmo em nossos dias alguns maçons mal informados nos acusam de ateísmo, de sermos um rito espúrio e outros adjetivos apropriados para quem não estuda Maçonaria.

Na verdade, a Maçonaria do Rito Moderno, nascida no distante século XVIII, é hoje a Maçonaria do Terceiro Milênio e, na mesma medida de sua adequação à modernidade, as mistificações dentro da Ordem vêm perdendo espaço, valorizando-se o estudo maçônico.

A síntese dos debates da Assembléia, em l876, que levaram à resolução de l877, mostra bem, que: -”A franco maçonaria não é deísta, nem é atéia, nem sequer positivista. A instituição que afirma e pratica a solidariedade humana, é estranha a todo dogma e a todo credo religioso. Tem por princípio único o respeito absoluto da liberdade de pensamento e consciência. Nenhum homem inteligente e honesto poderá dizer, seriamente, que o Grande Oriente de França quis banir de suas lojas a crença em Deus e na imortalidade da alma quando, ao contrário, em nome da liberdade absoluta de consciência, declara, solenemente, respeitar as convicções, as doutrinas e as crenças de seus membros”.

O Rito Moderno mantém-se tolerantemente imparcial, ou melhor, respeitosamente neutro, quanto à exigência, para os seus adeptos, da crença específica em um Deus revelado, ou Ente Supremo, bem como da categórica aceitação existencial de uma vida futura; nunca por contestante ateísmo materialístico, mas unicamente, pelo respeito incondicional ao modo de pensar de cada irmão, ou postulante. Demonstra apenas, a evolução das crenças estimulando os seus seguidores ao uso da razão, para formar a sua própria opinião. Procura ensinar que a idéia de Deus resulta da consciência e que as exteriorizações do seu culto não passam de um sentimento íntimo, que se pode traduzir das mais diversas maneiras.”

Nada há aqui de irregular ou que fira os ideais maçônicos. Ao contrário, o Rito Moderno mais que qualquer outro está em consonância com o ideal de liberdade e tolerância preconizado na Constituição original de 1723. Se, por força e imposição de sectários de quaisquer religiões os ideais originais foram alterados pela GLUI ou por qualquer outro rito, fica a GLUI e tais ritos sujeitos a crítica da história e não nós!

O Rito Moderno é fruto de uma época de valorização da liberdade e da igualdade, quando o poder do trono e da mitra foi questionado e o valor do ser humano exaltado, entendendo ainda em nossos dias que o maçom deve ter a faculdade de pensar livremente, de trabalhar para o bem-estar social e econômico de todo o cidadão, defendendo os direitos do homem e uma melhor distribuição de rendas. Tal tendência filosófica humanista é nossa tônica e dela não podemos abrir mão.

Quando o G∴O∴F∴ libertou o Rito Moderno das influências dogmáticas, proporcionou aos seus praticantes a condição de verdadeiros livres pensadores, habilitando-os a sonhar com ideais mais elevados a serem praticados aqui e agora e não postergados para um incerto amanhã! Só assim será possível a formação de uma humanidade mais justa e mais fraterna.

Tenhamos em mente que:

O Rito Moderno não admite a limitação do alcance da razão, pelo que desaprova o dogmatismo e imposições ideológicas e, por ser racionalista e adogmático, propugna pela busca da Verdade, ainda que provisória e em constante mutação. A filosofia do Rito se opõe a qualquer espécie de discriminação. A não admissão de mulheres dá-se em decorrência de tratados e não da natureza do Rito.

BIBLIOGRAFIA

1) Ritual de Aprendiz – GOB;
2) O Aprendiz no Rito Moderno – Melkisedek – Editora A Gazeta Maçônica – 2005.

Imagem: Selo Comemorativo de 275 Anos da Maçonaria na França. Lançamento - 2003